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04/03/17:  Palestra "Outros olhares sobre a Pixação"

 

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O ArdePixo é um coletivo formado por pessoas interessadas na produção de conteúdo, promoção de ações educacionais e de conscientização, produção artística e ativismo sobre a pixação de São Paulo e sobre como a cidade é vivenciada pelo esse grupo de pessoas, que escolheu esse modo de expressão para se manifestar no espaço público.

 

Além de um canal de visibilidade da estética e contextos da expressão na cidade, o ArdePixo é também um canal de debate, que traz à tona diversos olhares como de pixadores, acadêmicos, jornalistas, críticos ou qualquer cidadão que tenha interesse em discutir a questão de forma tolerante e democrática, pessoas que atuam na rua ou não, e que nem sempre contam com espaços de voz (não editada) nas grades mídias.

 

O ArdePixo é também um canal de produção de conteúdo de arte, política e ativismo – pois tudo isso é o universo do pixo. Não acreditamos em visões neutras sobre os fatos e não temos a pretensão de ser neutros em nosso conteúdo, mas de produzir, coletar e reunir materiais que possam fazer emergir perspectivas que até então não foram exploradas ou não foram mostradas.

 

Aqui você verá outros olhares e outras vozes sobre a pixação de São Paulo. 

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31.08.2017

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Mulher, educação e pixação caminham juntas - relato de PRECIOSA

 (FOTO: acervo pessoal de Preciosa)

 

"Bem, há sete anos conheci a pichação, um movimento considerado por muitos como vandalismo uma degradação ao patrimônio público, poluição visual - eles dizem.

 

Não comecei pra chamar atenção, muito menos porque era revoltada com os sistema que nos oprime a cada dia. Comecei pelo simples fato de mostrar pra mim de que era capaz –  admirava barracões e prédios e imaginava se um dia eu conseguiria fazer  algo do tipo, subir lá no alto e deixar a minha escrita, superar o medo de altura e provar dentro de mim que eu podia também fazer algo diferente, mesmo que isso não fosse visto como o correto.

 

Dentro desses sete anos passei por muita coisa. Conciliar serviço e pichação não é nada fácil, se corre riscos pois seu nome está em jogo, seu futuro, cair em mãos de heróis da noite e sofrer agressões ou dar de cara com policiais que querem te ferrar e te levar pro d.p. pra passar tempo, ou sofrer uma queda e se machucar feio pelo simples fato de querer pichar.

 

É um movimento que aprendi a gostar pois a cada dia me superava e aprendia mais, comecei a ter visão pra conseguir possíveis lugares para rabiscar, peguei a manha de subir nos barracões, fazer as letras de ponta cabeça corretamente, usar a lata de spray sem deixar torto, tudo pra mim era progresso. Descer e depois, do outro lado da rua, olhar pra cima e admirar algo que eu mesma fiz, a minha arte urbana.

 

Umas das coisas mais legais é conhecer – sim, sair da sua cidade e ir para outra totalmente diferente pra conhecer – outros pichadores conhecer points, quebradas, ir as festas, reuniões onde tudo é voltado a escrita urbana, fechar preza, marcar role, descobrir coisas. A pichação me proporcionou tudo isso. Me proporcionou conhecer pichadores monstros, a dar rolê com quem antes eu admirava na net, a conhecer também os comédia e não querer ser igual a eles a passar por situações de risco, pra hoje ter inúmeras histórias pra contar.

 

Mas a maior dificuldade que eu ainda sinto nesse meio é o simples fato de eu ser Mulher. É sim, pichação é um movimento muito machista e onde pra muitos “homi” mulher não agrega em nada na pichação só atrapalha. Pra muitos deles querer chamar uma mina pra pichar não é apenas querer sair no pião e fazer um picho pela quebrada e querer que no final essa mina ainda fique com ele, caso contrário ele sair difamando ela pros amigos como mary cap, maria lata entre outros adjetivos baixos. Sem dizer que se você não responde mensagem na internet, te chamam de desumildade, metida, como se nós fossemos obrigadas a responder macho e dar ousadia, sem contar que a maioria confunde educação com liberdade e vem com conversa indelicada e sem postura.

 

Tive que na maioria das vezes exigir respeito como se fosse homem, agir como um, falar mais alto e ser tachada de ignorante porque de maneira tranquila não entendiam, não me deixavam ter voz, eu só era mais uma ali pra chamar pro role e dar a mão caso a viatura passe, e fazer pose de casalzinho.

 

Sofri por causa desse machismo dentro da pichação e me sentia mal, pois estava nesse meio pra superar meus medos em subir alto e sempre que alcançava e conseguia meu objetivo, era obrigada a ouvir de terceiros que ouviram por aí que quem fazia meu role eram os cara que estavam comigo, pois pra alguns eu não tinha capacidade.

 

Eu simplesmente odiava ouvir isso pois corria riscos de me machucar, de ser presa, de afundar em uma telha pra depois vir um infeliz e dizer que não era eu quem fazia, o que ele esperava, provas?  Eu nunca aceitei que ninguém fizesse meu role por mim. Quando eu não conseguia subir preferia fazer embaixo ou procurava outro lugar mais fácil. Não entrei nesse meio pra ver minha marca sendo feita por outra pessoa que não seja eu. Então eu não tinha que provar nada pra ninguém, pra macho nenhum,  porque pra muitos é mais fácil criticar do que admitir que tem uma mina que começou há pouco tempo e picha mais que muito homem das antiga.

 

 

(FOTO: acervo pessoal de Preciosa)

 

Pichar sozinha também é um problema, por que se você sai na noite e está em uma rua sozinha e do outro lado da calçada um homem qualquer seguindo seu caminho, mais a frente um ladrão mal intencionado, quem será que ele irá perseguir para assaltar? Quem será que na visão dele será o mais frágil? Pois bem, já dá pra imaginar.

 

Se corre um risco quando se está em grupo, porém quando se está sozinha todos esses riscos dobram, se a maioria das mulheres já são assediadas em público a luz do dia, imagine à noite. Quando me iniciei na pichação achava que tudo era mais fácil por ser mulher, ninguém iria desconfiar que era uma pichadora, até que um dia eu e uma amiga que também pichava saímos a noite no objetivo de fazer algum picho e alguém nos observava querendo nossos pertences, perdemos tudo aquela noite. Então descobri que sair por aí sem destino a procura de algo não dava mais certo, o jeito era ter o alvo e ir direto nele, sem muitas delongas. Se iria dar certo bem, caso contrário voltaria pra casa e pensaria em outro lugar tranquilo. Mas andar sozinha à noite não era mais uma boa ideia. 

 

Eu lutei pra ter minha voz ouvida, pra ser respeitada no meio da pichação, bato de frente com quem não entende o recado e não aceito ser diminuída, não sou menos que ninguém. Hoje sou reconhecida, pois minha caminhada é limpa, nunca precisei atrasar o lado dos outros pra conseguir algo, consegui deixar minha marca imune de buchichos e brigas. São sete anos de uma história bem feita. Acredito que posso ainda mais, pois da mesma maneira que acreditava que conseguiria subir no alto pra escrever algo hoje sei que tenho capacidade pra mais.

 

Durante esses sete anos de pichação comecei uma faculdade. Me formei em Pedagogia depois de quatro anos e atualmente trabalho na área como professora de educação infantil e faço pós-graduação em psicopedagogia. Aos finais de semana também faço teatro, inglês e alguns cursos que aparecem, pois busco sempre conhecimento para mim e para agregar ao meu curriculum.

 

Hoje sinto muito orgulho da minha pessoa, pois mesmo em meio a inúmeros desafios e dificuldades consegui realizar muitos de alguns dos meus objetivos, soube administrar com delicadeza cada passo pois não é normal uma professora ser pichadora, isso pra sociedade é um absurdo, como que pode eu trabalhando com educação, trabalhando com a base da formação de um adulto que é a educação infantil me envolver com pichação?

 

Pois bem, não foi uma escolha, foi algo que surgiu, como disse no inicio, não é pra se aparecer nem nada relacionado ao sistema, foi algo que me despertou o interesse, onde eu queria ser capaz de superar meus medos e de conseguir fazer algo diferente. A pichação hoje pra mim é uma válvula de escape do mundo externo, é onde busco um momento pra eu ser única e deixar registrado ali algo que criei e que alimentei durante todos esses anos.

 

É claro que não saio por aí aos quatro ventos falando pra todo mundo o que faço. Existe muito preconceito principalmente na área em que atuo, porque você é visto como vândalo, como uma pessoa que só esta ali para danificar algo com rabiscos, ou seja, dar prejuízo. Soube conciliar muito bem isso, aprendi a dividir essas responsabilidades e essas escolhas pra que lado nenhum fosse prejudicado e eu tivesse que abrir mão.

 

Em sala de aula hoje eu ensino aos meus alunos o que eu aprendi quando tinha a idade deles, o certo e o errado. As suas escolhas no futuro eles farão, quando estiverem prontos pra seguir o caminho que desejarem, pois já serão responsáveis por si. Cabe a cada um trilhar o destino que desejar.

 

Agradeço a pichação, pois foi a partir dela que conheci muitas pessoas e lugares, ouvi inúmeras histórias e o melhor de tudo: superei meus medos e fui capaz de provar pra mim mesma que era capaz.

Sou mulher sou pichadora sou professora e tenho orgulho de mim e da minha história."

 

Meu nome é Angela, tenho 24 anos e picho PRECIOSA, moro em Campinas/SP, faço partes das grifs Os*Registrados no Código Penal, Zona Oeste pra cima.

 

 

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