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04/03/17:  Palestra "Outros olhares sobre a Pixação"

 

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quem somos: 

 

O ArdePixo é um coletivo formado por pessoas interessadas na produção de conteúdo, promoção de ações educacionais e de conscientização, produção artística e ativismo sobre a pixação de São Paulo e sobre como a cidade é vivenciada pelo esse grupo de pessoas, que escolheu esse modo de expressão para se manifestar no espaço público.

 

Além de um canal de visibilidade da estética e contextos da expressão na cidade, o ArdePixo é também um canal de debate, que traz à tona diversos olhares como de pixadores, acadêmicos, jornalistas, críticos ou qualquer cidadão que tenha interesse em discutir a questão de forma tolerante e democrática, pessoas que atuam na rua ou não, e que nem sempre contam com espaços de voz (não editada) nas grades mídias.

 

O ArdePixo é também um canal de produção de conteúdo de arte, política e ativismo – pois tudo isso é o universo do pixo. Não acreditamos em visões neutras sobre os fatos e não temos a pretensão de ser neutros em nosso conteúdo, mas de produzir, coletar e reunir materiais que possam fazer emergir perspectivas que até então não foram exploradas ou não foram mostradas.

 

Aqui você verá outros olhares e outras vozes sobre a pixação de São Paulo. 

 POSTS recentes: 

31.08.2017

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Carta ao prefeito de São Paulo

 

 

    Pela segunda vez nosso novo prefeito fez uma declaração contra a pixação (sim, com “x”) de São Paulo, que ele insiste em classificar como algo que somente contribui para a degradação da cidade e como uma expressão menor em relação ao graffiti.

 

   Por meio deste manifesto gostaríamos de colocar outras vozes neste debate e esclarecer algumas questões que parecem ainda muito obscuras ao nosso novo prefeito.

 

   Primeiro de tudo, ele declara a intenção de criar um espaço controlado para que os ditos artistas se expressem livremente e não se dá conta da primeira contradição: liberdade não existe dentro de muros fechados, a liberdade consiste no uso livre do espaço público. E o senhor prefeito não se pergunta por quais motivos esse espaço público não tem sido usado livremente por seus cidadãos, de todas as classes. Uns, que se trancam atrás dos muros dos condomínios fechados, e que não se sentem seguros para circular pelas ruas da cidade, contribuindo para o aumento da segregação aqui existente. Outros, que são marginalizados por uma configuração de cidade que aglomera sua riqueza nas centralidades e que não nem ao menos um transporte público acessível a todos, e a todas as partes da cidade, que garanta o direito ao uso livre dos espaços a todos que aqui residem – problema que se agravou com o aumento do valor da integração, benefício utilizando em 1 a cada 5 viagens, principalmente por quem vem das margens da cidade para o centro.

 

    Uma expressão artística feita dentro de um espaço pré-determinado implica todas essas questões citadas e vai totalmente contra a ideia da arte feita na rua, que é garantir que todos possam ver, interagir e ser afetados por aquela manifestação no seu dia a dia, mesmo quem não sai de sua casa com esse objetivo. Como as pessoas que moram na ZS, na ZN, no extremo Leste, na ZO... como essas pessoas vão chegar até a Mooca (ou qualquer outro bairro “escolhido” para abrigar o “grafitódromo”) para ver a expressão de rua de São Paulo? A expressão de rua está na rua de todos os bairros porque são parte intrínseca da paisagem urbana de nossa cidade, só fazem sentido existindo em meio aos prédios e ao movimento caótico, pois a cidade em si é parte da obra. A obra faz parte do trajeto diário dos moradores e não é feita para ser vista em um momento do final de semana, fechada entre muros segregados.

 

    Em segundo lugar, ele declara que as pessoas poderão expressar sua arte de forma “expressiva” neste local e não se dá conta de mais um contradição: ser expressivo não é só uma questão de conteúdo, mas da forma como as pessoas se expressam. Ninguém pode ser expressivo fazendo um desenho numa folha e guardando debaixo da cama. Ser expressivo é escolher a forma e lugar onde se expressar. Ser expressivo é fazer uma decisão política das condições nas quais se expressa. A potência de uma expressão é justamente a escolha de como ela vai chegar até as pessoas, e talvez ela precise chegar às pessoas quebrando algumas regras para que esse público possa questionar a si mesmo se as regras deveriam ser como são. Se não entender bem o que estamos falando: um pixador quer quebrar as regras justamente porque quer questionar as regras de uma cidade que não garante condições dignas de vida a seus moradores, de todos os lugares, de todas as classes, de todas as cores. E aqui lançamos a pergunta: o senhor declara o combate à pixação por ser uma agressão à cidade, mas não pensa em garantir uma cidade menos agressora a seus moradores? O senhor coloca a pixação como motivo de uma degradação e não se dá conta do óbvio: a pixação é uma marca que denuncia e somente permanece nos locais que já estão degradados ou que legitimam sua presença. 

 

 

 

    Por fim, o prefeito pede que os pixadores se tornem artistas. Primeiro podemos sugerir que ele estude um pouco mais sobre arte contemporânea, pois já há alguns anos se sabe que não se fala de arte sem se falar de política e que as obras que ocupam as bienais e principais mostrar pelo mundo não são dos artistas que decoram a sala dele. Segundo, podemos lembrar que a pixação paulista ocupou a entrada de uma importante galeria francesa em uma mostra de street art em 2009, a convite do curador, assim como participou da Bienal de Berlim em 2012, também a convite da organização. Além disso, em 2016 um pixador muito respeitado no meio, o Di, foi tema principal de uma exposição realizada em uma galeria de arte na Vila

Madalena. Isso tudo sem citar que essa expressão paulista é tema de diversos documentários, nacionais e internacionais, exibidos ao redor do mundo, e também de estudos acadêmicos. É uma expressão que traz nela a história de uma parte da população, que carrega o grito de cidadãos que não têm garantido seu espaço e seus direitos, que não provoca mas sim denuncia a degradação da cidade. Por fim, e de maior interesse por parte de uma administração da cidade, a pixação é uma expressão de grande interesse por parte dos turistas, que reconhecem essa expressão como única no mundo (pois se diferencia em estética e composição dos graffitis e “tags” em outros países) e procuram com curiosidade as marcas deixadas por essas pessoas que literalmente dão suas vidas por sua expressão de existência e liberdade na cidade de São Paulo.

 

    Talvez, senhor prefeito, o senhor esteja perdendo uma grande oportunidade de olhar para a pixação e entender as reais necessidades e próximos desafios que essa cidade te traz.

Coletivo ArdePixo

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